Dez seleções africanas na Copa do Mundo 2026: um continente redefine seu lugar no cenário mundial

Pela primeira vez na história, a África terá dez nações na Copa do Mundo de futebol. A partir desta quinta-feira, com o início na América do Norte em um torneio ampliado para 48 equipes, o continente se prepara…


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  • 10.06.2026 às 20:34
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Pela primeira vez na história, a África terá dez nações na Copa do Mundo de futebol. A partir desta quinta-feira, com o início na América do Norte em um torneio ampliado para 48 equipes, o continente se prepara para a competição com uma representação sem precedentes – e ambições à altura deste momento histórico. A África do Sul, país-sede em 2010, abre a competição contra o México, coanfitrião, em um jogo inaugural carregado de simbolismo.

Uma progressão lenta, seguida de uma aceleração decisiva

A história africana na Copa do Mundo começa em 1934, quando o Egito se torna a primeira nação do continente a participar da fase final. Mas durante décadas, essa presença permanece anedótica: o Marrocos só aparece em 1970, antes que o Zaire – hoje República Democrática do Congo – dispute sua única Copa do Mundo em 1974. Somente a partir dos anos 1980 várias seleções africanas começam a se qualificar simultaneamente, impulsionadas pela ascensão do futebol profissional no continente e pelo crescimento de jogadores formados nos grandes clubes europeus.

A virada estrutural ocorre em 1998, quando a FIFA atribui pela primeira vez cinco vagas à Confederação Africana de Futebol (CAF). Essa cota, mantida nas edições seguintes, enfrenta, no entanto, um teto simbólico: seis seleções em 2010, durante a primeira Copa do Mundo realizada na África, constituíram o recorde absoluto até hoje. A expansão do formato da competição, decidida pela FIFA para 2026, oferece à CAF duas vagas adicionais, elevando o total para nove classificados automáticos e um décimo oriundo dos playoffs intercontinentais.

O terremoto Qatar 2022 e o que ele mudou

Dificilmente se pode entender a magnitude do que representa 2026 sem voltar ao Qatar 2022. O percurso do Marrocos até as semifinais abalou as referências estabelecidas. Os Leões do Atlas eliminaram sucessivamente a Bélgica, a Espanha e Portugal – três nações entre as mais tituladas da história do futebol mundial – antes de sucumbirem à França. Esse resultado não foi fruto do acaso: refletiu uma organização tática sólida, uma profundidade de elenco sem precedentes e uma mentalidade forjada por uma geração de jogadores atuando no mais alto nível na Europa.

Esse precedente modifica a análise que se pode fazer das dez seleções africanas envolvidas em 2026. O Senegal, campeão africano, Gana, Argélia, Costa do Marfim e Egito chegam com elencos experientes em competições continentais e europeias. A Tunísia, presente em sua sexta Copa do Mundo, é uma das equipes mais experientes do contingente africano. O Marrocos, por sua vez, almeja confirmar sua ascensão de 2022 em vez de apenas repeti-la.

Ilhas de Cabo Verde e RD Congo: duas histórias à parte

Entre as dez, duas nações merecem atenção especial. Cabo Verde disputa sua primeira Copa do Mundo, culminando uma progressão notável para um arquipélago de menos de 600.000 habitantes, cujo futebol depende amplamente de uma diáspora espalhada entre Portugal, Países Baixos e França. A qualificação dos Tubarões Azuis ilustra o quanto o modelo de detecção de jogadores oriundos da emigração transformou o futebol de muitas pequenas nações.

A RD Congo, por sua vez, assina um retorno após cinquenta e dois anos de ausência. Em 1974, o Zaire deixou a competição sem vitória, em circunstâncias que se tornaram tristemente famosas. O retorno dos Leopards em 2026 fecha um longo capítulo e abre outro, cheio de esperanças para um dos países mais populosos do continente.

A representação não é suficiente: o desafio da performance

Dez seleções é um recorde. Mas a questão que estruturará as semanas seguintes é: essa representação quantitativa pode se transformar em um impacto qualitativo duradouro? A ampliação para 48 equipes facilita, sem dúvida, a qualificação, mas não garante nenhuma vantagem uma vez que o torneio comece. As seleções africanas frequentemente mostraram sua capacidade de produzir surpresas na fase de grupos, mas historicamente têm dificuldade em avançar nas partidas eliminatórias.

As razões para essa disparidade – preparação física, densidade do calendário, coesão tática ao longo do tempo – são debatidas há anos nas instâncias do futebol africano. A Copa do Mundo 2026 servirá como um teste em grande escala para medir se os progressos observados em Qatar 2022 correspondem a uma tendência de fundo ou a um pico isolado. Com dez seleções em disputa, as chances de que pelo menos duas ou três delas alcancem as oitavas de final são estatisticamente mais altas do que nunca. Mas ultrapassar a fase de quartas – onde a África esbarrou desde os pênaltis de 2010 entre Gana e Uruguai – continua sendo o verdadeiro horizonte.

Da solitária Egito de 1934 às dez nações de 2026, o caminho percorrido é imenso. No entanto, ele permanece incompleto enquanto as seleções africanas não tiverem inscrito seus nomes entre os semifinalistas regulares, ou mesmo finalistas, da maior competição de futebol do mundo.

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