Cinquenta e dois anos separam Zaire 1974 da República Democrática do Congo 2026. Essa ausência é uma das mais longas entre as seleções africanas, conferindo a essa classificação um significado que vai além do esporte. No dia 26 de junho de 2026, em Atlanta, quando os Léopards enfrentarem o Uzbequistão na última rodada do Grupo K, será muito mais do que um jogo de grupo: um encontro com uma história que esteve suspensa por muito tempo.
O fantasma de 1974 e o peso de uma página a reescrever
A única participação deste país em uma Copa do Mundo permanece uma das mais dolorosas da história do torneio. Sob o nome de Zaíre, a equipe fez o extraordinário em 1974 na Alemanha Ocidental: tornou-se a primeira nação da África Subsaariana a pisar nos gramados da competição. O que se seguiu foi cruel. Três derrotas, quatorze gols sofridos, nenhum marcado, e uma derrota de 9-0 para a Iugoslávia que se gravou na memória coletiva do futebol mundial pelas piores razões. Esse resultado permanece uma das mais pesadas derrotas da história da competição.
Entre esse naufrágio e hoje, a RD Congo perdeu seis qualificações consecutivas, incluindo as cinco últimas edições de 2006 a 2022. O país possui um histórico africano respeitável – dois títulos na Copa Africana de Nações, em 1968 e 1974 – que testemunha uma tradição futebolística real. Mas a Copa do Mundo havia se tornado uma fronteira intransponível, até esta campanha de qualificação bem-sucedida sob a direção do técnico francês Sébastien Desabre: sete vitórias, um empate e uma única derrota em nove jogos. Um desempenho que não é fruto do acaso.
Desabre, o arquiteto de uma equipe construída para resistir
O projeto tático de Desabre se baseia em um princípio claro: defender primeiro, atacar rapidamente. O treinador francês privilegia um bloco médio compacto, deixando o balón para o adversário para melhor explorar as transições pelos corredores. Suas formações preferidas – 4-2-3-1 ou 4-3-3 – são projetadas para minimizar os espaços no centro e desestabilizar com rapidez nos contra-ataques. Ao longo da qualificação, as vitórias muitas vezes foram decididas por um único gol de diferença, o que diz tanto sobre a solidez defensiva da equipe quanto sobre suas limitações ofensivas.
Chancel Mbemba é a espinha dorsal: 108 seleções, uma autoridade aérea no coração da defesa e uma experiência europeia que o torna muito mais do que um capitão simbólico. Ao seu lado, Aaron Wan-Bissaka, que se reconverteu sob a camisa congolense após ter jogado pela seleção da Inglaterra, traz uma solidez de nível Premier League na lateral direita – um trunfo precioso contra os ataques laterais que Portugal e Colômbia sabem orquestrar perfeitamente.
Na frente, a responsabilidade ofensiva recai amplamente sobre Yoane Wissa, atacante versátil do Newcastle United, um dos quatro jogadores da Premier League do grupo. Cédric Bakambu, 35 anos e 21 gols pela seleção, continua sendo a referência na área, mesmo que seu papel provavelmente seja limitado a intervenções pontuais em vez de uma titularidade sistemática. Gaël Kakuta, convocado aos 34 anos, pode trazer criatividade e qualidade em bolas paradas que Desabre soube explorar para forçar vitórias apertadas na qualificação. Edo Kayembe garante a conexão entre as linhas em um registro mais físico e dinâmico.
O Grupo K e a realidade das ambições congolezas
Colocada em um grupo com Portugal, Colômbia e Uzbequistão, a RD Congo já conhece sua hierarquia. Portugal está entre os favoritos do torneio, a Colômbia possui um elenco profundo e um nível de forma recente sólido. Contra essas duas equipes, o objetivo realista é limitar os danos e manter uma organização defensiva suficientemente sólida para considerar sair com um ponto. Não é uma ambição tímida: contra equipes que naturalmente dominam a posse de bola, o bloco baixo congolês joga precisamente em suas condições preferidas.
O verdadeiro pivô da campanha congolense é o jogo contra o Uzbequistão, no dia 27 de junho em Atlanta. É um adversário ao alcance desta equipe, em uma cidade onde a comunidade africana é significativa e que se parecerá com um jogo em casa. Uma vitória lá, combinada com um ponto arrancado contra Portugal ou Colômbia, abriria a porta para a próxima fase no contexto ampliado da Copa do Mundo 2026.
O formato com 48 equipes é aqui um fator decisivo. A introdução de uma fase eliminatória de 32 equipes – das quais oito dos dezesseis terceiros colocados – cria uma porta de entrada inédita para equipes como a RD Congo que terminam bem classificadas sem vencer seu grupo. Um acesso às oitavas de final representa o teto credível para esta equipe, não sua ambição mínima. E em um torneio eliminatório de um único jogo, uma equipe disciplinada, bem organizada, capaz de manter um resultado e impor o ritmo, nunca é sem perigo – mesmo para adversários melhor classificados.
O que este retorno representa além do futebol
A RD Congo é um dos países mais populosos da África, com uma diáspora extensa em vários continentes, especialmente na Europa e na América do Norte. A presença de muitos jogadores formados em clubes europeus – em Lille, Newcastle, Sunderland, Le Havre, Liège – ilustra tanto a riqueza do potencial futebolístico congolês quanto os percursos migratórios que marcam a história do país. Para milhões de torcedores espalhados entre Kinshasa, Bruxelas, Paris e Montreal, esta Copa do Mundo não é apenas um torneio: é uma reconciliação com uma identidade coletiva há muito mantida à margem da cena mundial.
A questão de saber se esta equipe pode transformar este retorno em uma performance memorável dependerá de sua capacidade de executar, diante das melhores ataques do mundo, o que soube fazer durante dezoito meses de qualificação: defender com inteligência, atacar com precisão e vencer os jogos que deve vencer. Para uma equipe que carrega cinquenta e dois anos de espera sobre os ombros, é tanto uma pressão quanto uma fonte de motivação que poucas equipes no Mundial 2026 poderão compreender.